KAMI, A DIVINA FORÇA DA NATUREZA

Não se trata de dominar a natureza, mas de viver em harmonia com ela.

Daisetzu Teitaro Suzuki, filósofo e escritor japonês (1870 – 1966)

Eram dez e meia da manhã, quando, numa quarta-feira de agosto de 2024, guardámos as malas de viagem num cacifo da estação de Ueno. Para trás ficou uma extensa viagem, o cansaço foi amenizado pela excitação de chegar a Tóquio, onde nos esperava um bairro conhecido pela sua atividade diversificada, mas pacata e acolhedora.

As expetativas eram enormes, o Japão era um destino de férias pretendido já há muitos anos, as suas paisagens deslumbrantes, a cultura, a organização social, a arquitetura urbana e a sua gastronomia, eram vivencias que queríamos experienciar intensamente. Para isso, o roteiro de 21 dias previamente planeado teria de ser minuciosamente saboreado

Fotografia 1 - Casa do Samurai, Kyoto

Para temperar a degustação de tão opíparo passeio e registar todos os detalhes, fazíamo-nos acompanhar por uma Fujifilm X-S20 com uma lente 18-55mm/f2.8 e uma Fujifilm X-T50 com duas lentes, uma de 23mm/f1.4 e outra de 56 mm/f1.2. Minha filha e eu, sabíamos que íamos fotografar a viagem, é diferente de fazer uma viagem para fotografar, daí que o resultado esperado sejam fotografias com conteúdo predominantemente documental, onde se reflete o estilo de quem fotografa, mas não é tão relevante a componente artística, pois o ritmo da viagem teria de ser marcado pelos trajetos de comboio que quase diariamente fizemos e pelos 18 a 24 km que todos os dias percorremos a pé. O que é bom de ver, não dá oportunidade a grandes veleidades artísticas.

Fotografia 2 - Parque em Kyoto

Documentar fotograficamente uma viajem permite observar detalhadamente os pormenores onde se detém a nossa atenção e assim foi, os jardins, parques e florestas, as ruas estreitas delimitadas por casas de habitação tipicamente pequenas, embelezadas pelo enorme emaranhado de cabos elétricos suspensos em postes e não nas paredes das casas, os magníficos templos religiosos que se encontram em todos quarteirões de todas as povoações e os esplendorosos castelos, diferentes e mais vistosos que os nossos. Tudo era assunto para fotografar e consoante o nosso olhar ia dando ordem de obturar, fomo-nos apercebendo de que havia um elemento comum em praticamente todas as composições que fazíamos.

É fácil imaginar do que se tratava, afinal o Japão sempre nos foi dado a conhecer pela sua intensa e vasta vegetação. A sua geografia permite a imensa vastidão de florestas, de parques e de jardins, as árvores são uma constante em toda a paisagem, então qual era a admiração, se a presença do elemento natural já era esperada.

Fotografia 3 - Templo em Kyoto

Mas a admiração era grande e foi crescendo consoante nos apercebíamos que as expressões da natureza, plantas, flores, árvores e até os rios e outras linhas de água, exerciam uma preponderância tal, que rapidamente entendemos que a sua interação connosco, com o ser humano, com a paisagem urbana, era muito diferente do que se passa no mundo ocidental.

Fotografia 4 - Centro de Tokyo

E qual seria a razão? Felizmente, algumas obras literárias que nos obrigámos a ler previamente à viagem para melhor entendimento dos traços culturais do povo com que iriamos conviver, permitiram-nos chegar ao entendimento da importância que a natureza tem nos fundamentos espirituais que tanto marcam a cultura japonesa.

O Xintoísmo, religião autóctone do Japão, venera a natureza que é sagrada e que se expressa através de forças divinas, os kamis, entendidos como deuses que estão presentes na natureza e nos seus elementos. Também o Budismo, que coabita com o Xintoísmo, harmoniza a natureza e coexiste com o meio ambiente de forma contemplativa.

Assim, os japoneses, desde tempos ancestrais, veneram a energia contida nas forças divinas da natureza, os kamis da natureza. Daí entenderem que os deuses estão presentes nos elementos naturais, a natureza é Deus.

Enquanto para nós, no ocidente, a natureza é muitas vezes entendida como uma criação de Deus para nosso usufruto, constituindo assim um recurso que moldamos a nosso belo prazer, no país do sol nascente, a valorização da natureza advém de conceitos diferentes e a expressão prática está presente na vida dos japoneses, toda a arquitetura é voltada para os jardins, para as árvores, sempre perseguindo a harmonia com os vários elementos naturais que são habitados por divindades ancestrais, colocam a natureza num plano sagrado e não mundano de usufruto individual como entendido no ocidente, os japoneses não dominam a natureza, vivem em sua harmonia.